29.12.07

Postédio

Sábado à noite. Internet vazia. Ouvindo músicas de um italiano que foram feitas em 1950, provavelmente.

A gente vai vivendo.

27.12.07

Trincheira entre carteiras - parte 2

Fragmentos de um chat

Commander diz
: é isso mesmo. bando de playboys mimados aqueles! vão pagar!


Dust2Dust diz
: Não sei. Às vezes sinto raiva, mas penso que isso é arriscado demais. Extremo.


Commander diz
: deixa de ser bundão...google gun aí e compra logo essa porra. Aproveita que vivemos na terra da liberdade haha teu nome tá limpo, não vai dar rolo...eles querem mesmo é vender, nem que fosse pro próprio Manson. a minha tá aqui prontinha! Freak!


Dust2Dust diz
: não duvido nada...mas me diz, quando vamos nos ver de novo?


Commander diz
: saudades?


Dust2Dust diz
: Aquilo foi...estranho, esquisito!


Commander diz
: gostou?


Dust2Dust diz
: Falo depois. O filho da puta do meu pai quer usar. Falou.

21.12.07

Um pouco

Estou um pouco desanimado com o blog, tanto que nem tenho dado muita atenção a ele. Não que seja falta de criatividade nem nada. Não poderia: nessas férias estou lendo e escrevendo como um maníaco. Lendo Orwell, Rubem Fonseca, John le Carré, Nelson Rodrigues, Machado de Assis, Wilhelm Reich, Miguel Reale, revistas, artigos e o que mais aparecer na minha frente. Na escrita, tenho me dedicado aos contos.

Pode parecer falta de gratidão, mas os que eu considero piores eu posto aqui. Os melhores, bem, esses um dia figurarão num livro. Quanto a isso eu sonho - por mim mesmo; rezo - para Algo; e apelo - ao pistolão, pois ninguém publica nada nesse país sem alguns conhecidos por aí.

As férias têm sido boas. Sem mais.

Logo posto a continuação da Trincheira.

17.12.07

Trincheira entre carteiras - parte 1

Rememoração e apresentação

Ele digitou gun e deu enter. Ah a maravilha do mundo virtual! Ah o capitalismo e a tecnologia! Comunicação e aproximação!

Uma Colt não seria coisa cara para Gabriel. Trabalhara duro durante o verão naquela espelunca - a que insistiam chamar de lanchonete - e juntara uns bons trocados. No início, ele pensara em aplicar essa grana nos estudos, para quando estivesse em Stanford, seu sonho, mas aos poucos foi desistindo.

"Aos poucos" eu disse? Pff. Advirto que eram aos muitos. Aos muitos socos que meu amigo Gabriel levava no meio da fuça. Aos muitos chutes, extorsões e ameaças. Aos muitos.

Socos, chutes, extorsões e ameaças não são nada. Eu, por exemplo, poderia socar cada um de vocês e nada aconteceria comigo, pois vocês são uns vermes apáticos, como esse mundo estagnado de merda. Good mourning, sick world! Socos não são nada. Ele agüentava.

Gabriel era um pobre diabo. Sofria horrores. Essa coisa de bullying e tal, a gente pensa que não existe, mas...poxa, os jovens são brutais, não? Jovens não perdoam fraquezas, diferenças. É um pouco como a lei do mais forte, nessa selva corrupta e corruptora chamada sociedade.

Ele me contou que um dia o torturaram, no banheiro. Tiraram fotos, os bastardos. Rosto na privada, língua no mijo, coisas nojentas, enfim.

Vocês podem falar "mas por que ele não avisou os tiras? os pais? alguém?!". Não sejam ingênuos. Gab jamais iria ser ouvido por aquele bundão chamado pai, ou por aquela prostitua adúltera que por coincidência era sua mãe. Não. Policiais também não fariam nada, vocês sabem. Quando muito, iriam dizer: "isso é problema da escola!" e iriam voltar aos seus donuts. Malditos. Gabriel sabia muito bem disso.

Cara, eu nunca vi um guri tão resistente! Onde calavam esses insultos todos? Calavam bem lá no fundo da alma dele, se é que essa porcaria de alma existe. Gabriel era um sujeito pacífico. Achava mesmo que seus problemas não eram de nenhuma relevância para o resto do mundo. De fato, acho que ninguém ligava pra ele mesmo.

Não sei bem o que fez o cara mudar: se o fato daqueles cuzões terem ridicularizado o Gabriel na frente de umas gatinhas ou se pelo fato de terem falado merda demais sobre a irmãzinha dele, Lili, uma guriazinha engraçadinha que ele vive protegendo, ou se tudo isso junto e mais as outras humilhações acumuladas. Não sei. Só sei que mudou.

Pouco depois de ter mudado, me conheceu na web. Permitam-me me apresentar (sempre quis dizer isso): sou Ferguson e minha história não importa, digo, ela é igual a do Gabriel, exceto por algumas diferenças e umas sacanagens que me ferraram legal. Sacanagem mesmo. Fiquei alterado.

Moramos na mesma cidade. Não demorou muito pra gente se cruzar por aí e ir se conhecendo.

6.12.07

Por que a pressa?

E é dada a largada!

São quatro grandes competidores. Todos campeões mundiais. Quatro raias, quatro estrelas!

Vejam como correm! Superam os obstáculos iniciais, vão ganhando o fôlego do primeiro vento no rosto. Ganham ritmo! Mais e mais rápido, são quatro grandes atletas!

Vejam só, foram muito bem treinados por seus técnicos. O 1 parece estar na frente, seguido pelo resto. Seu treinador é um dos melhores, ensinou-lhe tudo, deu tudo do bom e do melhor para ele.

Mas o 2 está na cola, será que alcança o 1? É uma batalha árdua! Vão agora superando as marcas iniciais, estão prontos para entrar na segunda parte da corrida. São mais e mais obstáculos, sem parar. É prova terrrrrrrrível!

Opa! Olhem! O 4 ficou pelo caminho, totalmente sem fôlego, deve ser reflexo daquele caso de 5 anos atrás, quando foi pego pelo doping...história horrível.

E os três competidores seguem adiante. Estão mais amadurecidos para seguir na corrida. Agora é uma prova de resistência! Resistirão a esse trajeto longo e repetitivo?

Cai o 2 no meio da pista! Será algo sério? Os paramédicos rapidamente estão entrando na pista para socorrê-lo, deve ser algo no coração. Não agüentou o ritmo da prova. Não é para todos!

Só restam o 1 e o 3 agora. Vão chegando ao final da corrida. Estão cansadíssimos, dá para notar por seus rostos, o físico está esgotado!!!

Estão empatados. Que competição! Que corrida! Que disputa! Vão chegar juntos?! A faixa está logo ali, a chegada vai se aproximando. Estão empatados. Minha nossa senhora!

Vão passar!!!

_________________________

Que me importa uma vida onde todos se encaram como numa corrida acirrada, onde mais importa ter do que ser? Onde a linha de chegada nada mais é do que a ida para o desconhecido? Onde se gabam por estar na frente, mesmo sendo por apenas um milésimo de segundo?

Parem de correr!

4.12.07

Never Stop the Music

TV é um tipo de loteria. Há dias em que queremos nos matar por estar passando três programas legais em canais diferentes ao mesmo tempo. E há dias em que nada presta na programação. Como eu raramente vejo TV, essa loteria fica tão impossível quanto ganhar na megasena.

Uma terça, na hora do almoço, não era exatamente o dia dos programas legais. Pelo contrário, era tão chato que a coisa mais interessante de se ver era a TV Senado.

Alguns venerandos senadores da Comissão de Educação, presidida pelo candidato-de-uma-nota-só, Cristovam Buarque, colocavam em pauta um projeto de lei que torna obrigatório o ensino da música na educação básica (antigo ensino fundamental).

"Ótimo!", pensei. Está aí uma iniciativa legal. Dessas que raramente os políticos propõem, pois não angariam nenhum voto para a próxima eleição com isso. Paradoxo estranho esse. O que é proveitoso e bom para a população não garante voto mais adiante, ao passo que uma ou duas pontes e umas praças restauradas são mais do que expostos na hora de lembrar o eleitor em quem ele deve votar.

Enfim, música sempre foi apontada por pedagogos, psicólogos e outros pesquisadores como uma boa forma de desenvolver a capacidade mental das crianças. Eu mesmo adoraria ter tido essa matéria na escola. Além de ser algo agradável, muitos anos depois poderia servir para conquistar garotas. Não conheço nenhuma menina que não ache demais um cara tocar algum instrumento.

Mas mesmo que eu não saiba tocar nada, não posso negar que a música tenha um papel fundamental na minha vida. É tão intenso quanto um vício, pois onde vou a desejo. Se estou num lugar bom, há grandes probabilidades de que esteja tocando música nesse lugar, ou então de que eu esteja pensando em alguma boa música. Se estou num lugar chato, torço para chegar logo em casa e desfrutar das minhas mp3. Música está em todo lugar. Toda hora.

Sincronizada com a exibição da TV Senado, uma apresentação de chorinho começou na Concha Acústica, lugar onde rolam alguns eventos musicais, que fica na praça em frente ao meu prédio. A tranquilidade da música me acalmou, levando-me para algum lugar longínquo, onde a aproveitei ao máximo. Essa mesma Concha já me despertou do sono com jazz, blues, corais. Já chamou minha atenção com bandas de rock e mpb, nas suas apresentações vespertinas de toda sexta-feira. E até mesmo me surpreendeu com um jam entre uma banda de prog rock e um grupo de hip hop londrinenses.

Onde quer que eu esteja: em casa, na universidade, no ônibus, em festas. Tanto faz. A música está lá, companheira inseparável, que ora me anima ora me deprime, dependendo de sua melodia e letra.

Sabiamente, os portentosos senadores votaram pela promulgação do projeto de lei. Que as crianças aprendam com gosto a cultivar essa companheira de todas as horas!

1.12.07

Sophia - Episódio 1

A Drummond

Sophia não perdera tempo raciocinando. Suas pupilas rapidamente fecharam-se num clic e a imagem captada por elas foi armazenada em sua memória virtual. Pensaria nela depois.

Desde que seu pai morrera Sophia não mais parara para admirar cenas como aquela. O pai era um grande admirador de momentos singulares, a ponto de parar qualquer coisa que estivesse fazendo para dar alento aos olhos, sedentos de uma bela imagem. Sophia aprendera com ele a ignorar a correria da vida.

Estacou e olhou em volta. Aço, silício, cabos. O que era mais cinza? A Pólis ou a vida?

Parou de pensar logo. Não era conveniente em sua época ficar indagando o Progresso. Fluir era necessário. O fluir do sistema.

Sentiu-se reprimida. Sentir não é pensar. Quando se abandona o âmbito da razão e a liberdade que temos para divagar sobre tudo, ou melhor, quando se pisa nessa capacidade - com novíssimas botas de couro aprimoradas com nanotecnologia - e o livre-pensar se eclipsa, grita mais alto a emoção. Os nervos ficam à flor da pele e os sentimentos tomam conta do que poderia ter sido da razão humana, a dialética, não a cartesiana. Não era fácil, porém, desviar da normalidade um cyborg.

Alguns lampejos de claridade começaram a assaltar a mente de Sophia. Iluminavam algo que ela estava escurecendo, bloqueando, obliterando. Não mais poderia acobertar aquilo que estava escondendo. Sophia tinha plena noção disso, jamais poderia iludir a si mesma. Sentiu vergonha.

Sophia estava mudando, queria mudar.

E não mais agüentando a espera pela rememoração, acessou o arquivo da foto que havia guardado no mesmo dia mais cedo: uma flor nascida entre obscuros vãos de aço. Ainda desbotada, que iludiu a polícia, sem cor a se perceber, sem pétalas a se abrir, sem nome e feia. Mas uma flor, sem dúvida.

28.11.07

3, 2, 1...

A faca serrou lentamente a carne macia como se estivesse deslizando pelo gelo. Espetando a parte cortada com o garfo, levei à boca o pedaço de animal morto saboroso. E aprovei seu sacrifício em alimentar-me.

Não muito distante do meu prato, um soco atingiu o rosto de alguém. O barulho abafado indicava que a carne batida não era tão macia quanto a carne agora em minha boca, talvez pelo fato de alguns ossos terem entrado na jogada também. Tirando a atenção do paladar e reforçando a audição e a visão, procurei o motivo da balbúrdia.

Um rapaz de estatura média e corpo atarracado era contido à força por outro rapaz, musculoso, que se encontrava no meio da briga. Separava o agressor (o contido) do agredido (que começava a se levantar, indignado com a agressão que sofrera).

A essa altura, muitos olhos já contemplavam a cena não corriqueira. Meu coração começou a bater aceleradamente e minhas extremidades formigaram. Oh não! Essa sensação de novo não! Como a odeio!!!

A briga arrefecera. O cara no meio dos dois brigões conseguira acalmar o ânimo exacerbado de ambos e agora cada um se encarava nervosamente de suas respectivas mesas. Seguranças velhos, barrigudos e baixinhos chegavam de todas as partes, apenas cercando o local da "briga". Uma nutricionista disponibilizou-se para mediar a paz. Após alguns minutos, só faltava os dois alterados se abraçarem e fazerem juras de amor eterno. Não fiquei sabendo do motivo da briga, embora ao menos tenha me interessado por ele.

Entretanto, minha sensação não passara. Como eu a odeio! E desde muito me acompanha. O que ela é? Jamais saberia explicar corretamente. É como um aviso. Um insistente aviso, que assobia alto em meu ouvido: "cuidado!". E a cada segundo aumenta mais seu volume, como se estivesse a predizer a explosão de uma bomba.

Por vezes, a sensação some e posso pensar que o mundo é um bom lugar para se viver. Porém, inconstantemente, a sensação volta e me diz: "está num barril de pólvora, isso tudo vai explodir a qualquer momento".

E essa tensão paranóica me atormenta, como que a indicar que algo grande e importante vai acontecer, e é bom eu estar precavido.

Sem alento, nada posso fazer para evitar esse choque espesso que me rodeia e altera as batidas do meu coração. Talvez o mundo esteja dentro de um funil, convergindo para uma estreita saída que mal sabemos onde pode dar. Talvez esteja acumulando um tremendo grau de violência, raiva, desprezo e ódio que, sem motivo aparente, perturbam-me as percepções. Ou talvez eu só esteja louco. Grandes probabilidades para todas as possibilidades.

Mas é bom que não ignoremos os sinais. Nada de bom pode acontecer no mundo mórbido que temos criado.

Só espero que essa bomba não exploda em minhas mãos. Ouçam!

25.11.07

Melhore!

Um fazendeiro alimenta melhor seus animais se quer que eles engordem.
Uma cozinheira capricha no tempero se quer que gostem de sua comida.
Um capitalista aumenta o salário de seus empregados se deseja maior produtividade.

Então por que cargas d´água meus professores não me dão uma nota maior se querem que eu estude mais?

23.11.07

Introduzindo Sophia

Sophia acordou esbaforida de seu sono habitual. Por uma qualidade técnica, não estava suando, tampouco suando frio. Não poderia, é lógico, uma vez que seu corpo cyborg não possuía glândulas sudoríparas (“Por que eu iria querer suar?!”, diria ela, como que brava, mas escondendo que seu pacote de implantação não incluía algumas glândulas e funções do corpo humano). Mas ser um cyborg não significa robotizar um humano. Um cyborg é um híbrido entre humanos e máquinas. Era algo essencial àquela época, assim como Ipods no século XXI.

Por ter um lado humano, demasiado humano, Sophia era passível de ter pesadelos. Como poderia se livrar dos sonhos? Seu encéfalo e medula espinhal eram originalmente de seu antigo corpo carnal, era o pressuposto para a existência completa de um cyborg. Assim sendo, seu cérebro estava lá, juntamente com seus inúmeros neurônios, sinapses e axônios. Logo, sonhava. E sonhava bastante até, mais do que gostaria.

Se há sonhos, entretanto, há pesadelos. Assim como onde há luz, há sombra, ou qualquer dicotomia complementar. O pesadelo de Sophia era do tipo existencial. Via-se frente ao espelho, impávida, como que a tentar procurar uma resposta para suas dúvidas. Subitamente, seu reflexo saía do espelho, abraçando-a, e esfaqueando seu ventre. Quatro, cinco vezes. Donde não jorrava sangue, mas dinheiro e engrenagens.

Não gostava de ter criatividade em pesadelos. “Coisa imprópria”, pensava. Criatividade gostava de ter quando pintava. E pintava bem, coisa que não nos interessa agora.

Sem sono a mais para desfrutar, mesmo porque só precisava de 3 horas de dele por dia, visto não precisar mais de repouso à carne, decidiu dar um upload no seu firewall. Abrindo a entrada lateral de seu pescoço, puxou dali fio extensível que foi se ligar à entrada plug do criado-mudo, com acesso à internet. Rapidamente, sua mente vasculhou alguns conteúdos de sites, indo achar o patch de upload na versão org do site da U.S. Robotics.

Começou a se indagar sobre o que era. Gostava de ter acesso à internet, cabos USB, uns HDs potentes, aparelho de comunicação conexo à mente, assim como tradutor de linguagem e decodificador de mais de 25 mil tipos de códigos. Mas pensava demais, sem envolver nisso nenhuma função tecnológica sua. Pensava e sentia dor diferente à dor que seus receptores sensíveis sentiam ao levar uma agulhada, por exemplo. Era uma dor dilacerante. Inexplicável.

Frustrada e ansiosa, tomou uma atitude firme e essencial em sua época, capaz de curar dores de diversos tipos dentro das mentes ainda humanas e frágeis: ligou para sua psicóloga.

_____

Nem tudo muda em passado, presente ou futuro. Sophia veio para ficar, como protagonista e homenagem aos clássicos da ficção científica.

19.11.07

Nosso tempo

Nada como distribuir e levar pancadaria de graça num mosh e circle pit dum show de grindcore após ficar uma semana inteira estudando doutrinas que meia dúzia de mal comidos jurídicos escreveram durante um tempo enorme e desnecessário de suas vidas para tentar diferenciar tipos de liberdade, igualdade e propriedade. Esse ecletismo tem nome.

Se chama Idade Contemporânea.

14.11.07

Virarei moralista

O tempo estava nublado lá fora, cinza e desalentador, devidamente bem acompanhado de uma banda de jazz que fazia uma pequena apresentação no restaurante. Sax, baixo, teclado, bateria. Absorviam-me em introversão, enquanto eu saboreava o frango e sua pele tostada além do ponto.

Resolvendo voltar ao mundo de fora, percebi que meus fellows discutiam sobre algo estranho para a hora:

- Eu acho totalmente estranho, é bizarro – concluiu um.
- Acho tão ridículo ... – concordou a outra.
- Também quero saber da fofoca! – disse, tentando me enturmar.
- Estamos falando de fulana.
- Ah, conheço, acho a namorada dela bonita.
- Eu também – anuiu o primeiro.
- Ah, não é pra tanto, gente...

Falavam sobre uma lésbica, ou bissexual, ou algo que o valha. Por mais que estivesse numa Universidade, local, em tese, de ideário progressista e libertário, percebi, no tom jocoso, certo ar de provincianismo por parte dos dois. Afinal, o que importa se a menina gosta de aranhas? O importante é que ela parece feliz. Resolvi me intrometer:

- Minha amiga que faz psico disse que no curso dela homossexualismo é até que normal, e ainda rola umas trocas de casais, e coisas do tipo. No nosso curso, sei lá, é tão...normal, certinho.
- Povo de psicologia é tudo doido e maluco – atreveu-se um deles.

Estaquei e abaixei os olhos para o prato à minha frente. Valeria a pena citar que meus pais são psicólogos? Vamos lá, Victor, deixe-os sem graça. Todo preconceito é imbecil, apesar de inerente ao humano. Não...melhor não. Chega de acidez por hoje.

- Meu frango tá frio! – disse, esfriando o assunto tal qual o restaurante deixara meu frango.

Não que se devesse levar muito em conta só o curso de psicologia que, a bem de explicação, não deixa escapar, nos hinos de seus estudantes, o fato de que psicologia rima com orgia. Mas de qualquer maneira, que belo curso straight fui me meter!

Enquanto isso, cursando Direito ou não, noto que preciso de antidepressivos. Já!

13.11.07

Depois que saí do 101

Algumas idéias apresentam-se de modo claro e específico em livros, filmes, pinturas, etc. Daí em diante, ao invés de se fixar na mente das pessoas para alertá-las, vira um modo de adquirir lucro, coisa usual no nosso sistema econômico. Quando Orwell apresentou a idéia do Grande Irmão, não imaginava que os nerds do Google inventariam algo como o Google Analytics, serviço que monitora as visitas de um site, e muito menos pensaria que meu blog:

1. recebeu 179 visitas em 11 dias;
2. recebe visitas da Califórnia;
3. recebe visitas de todas as regiões do Brasil;
4. tem uma média de tempo de visualização de 6 minutos;
5. tem uma taxa de rejeição de 70%;
6. recebe visitantes que usam, majoritariamente, mozilla firefox, com internet DSL;
7. tem mais visitantes vindos de Londrina;
8. é, geralmente, acessado por links postados em outros sites;
9. é achado no google através de palavras como "altruísmo"; "leite materno"; "advogado do diabo" e "onde estou".

Google Analytics is watching you!

9.11.07

A Savana é Logo Ali

Olhava a vítima à espreita, ocultando-se de qualquer ameaça, natural ou não. Por trás de seu esconderijo, perscrutava com seu olhar cada centímetro da vítima, toda sua estrutura física, suas patas, ancas, a pelugem leve, rala, como que provocante e convidativa a um banquete.

Passou mesmo a respirar lentamente, como se tivesse medo de que ouvissem um único suspiro que fosse. Predador que era, sabia calcular exatamente a hora do bote, da caçada, do fatídico momento de fincar seus afiados dentes e garras na caça.

A caça, ingênua, estava ali, a viver sua vida independentemente da presença do grande predador, que se fazia invisível. Bebericava algo, o que a tornava totalmente vulnerável.

Parecia uma caça apetitosa, dava certa água na boca do caçador, pois estava faminto. Seus instintos apontavam todos sinistramente para o que via à sua frente. Eram formas que lhe apeteciam, e iria saboreá-las. Ah, iria. Iria correr, perseguir e, então, num salto fantástico, que todos admirariam, iria agarrar a presa. Estaria vencida e seria dele, cada pedaço de sua suculenta carne.

Não havia vento. O mormaço distorcia o ar assim como o barro turva a água. A presa então abaixou a guarda, ignorante de seu trágico destino, ou então permissiva, à espera do bote, aceitando o destino. Era o momento certo.

Com uma determinação delirante, o caçador impulsionou-se: todos os seus músculos trabalharam vigorosamente para levá-lo até à caça de modo mais rápido e repentino possível. Um, dois, três segundos! Pronto, sucesso, estava a um centímetro da caça, vai mordê-la!

- O que é isso, seu tarado?! Sai fora! Não tá vendo que sou casada?! Se toca!

E um tapa foi tudo o que Carlos Augusto, o conquistador, conseguiu de sua presa tão vulnerável, durante o baile latino.

7.11.07

100 postagens

E chegamos finalmente ao 100º post. Parabéns, Zaratustra!

Olhando um pouco para esse blog, parece já que tem anos de existência, mas só possui 10 meses de vida. Nesse meio tempo, já postei crônicas, narrações, poemas, teorias, lyrics, enfim, muitas coisas, que versavam sobre os mais diversos assuntos: desde amor e frustração até meu cotidiano e situações engraçadas. Começou como um desabafo ao stress do vestibular, passou pela fase da minha adaptação a um novo local para morar, pelo fim do namoro, pela nova vida, por situações inesperadas e por milhares de sentimentos.

Era no início um aliado de Zaratustra, que me contava tudo. Mas me enchi do coitado e comecei a planejar sua morte. Com sucesso, venho expondo como é necessário ao mundo o lado negativo para que se alcance o lado positivo das coisas, o sucesso.

O projeto anda a todo vapor e não tem previsão de acabar. Isso tem um motivo, mas vou deixar que um log fale por mim, um log duma conversa com minha muito admirada amiga Lígia, que me comparava, na ocasião, a Clarice Lispector:

. Lígia . diz (15:49):
olha, essa pode ir pro seu blog

. Lígia . diz (15:49):

"enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas, continuarei a escrever"

. Lígia . diz (15:49):

beeem Victor Hugo A Barbosa i.i
Que cheguemos a mil.

Sink fast.

5.11.07

Elas sempre têm um ex idiota ou um namorado bundão

Eu não deixo meus relacionamentos antigos se intrometerem nas minhas tentativas de achar uma pessoa nova. Alguém avise as mulheres para fazer o mesmo.

3.11.07

Too late for your Halloween

No dia 31 de Outubro as pessoas costumam comemorar o Halloween, também conhecido como Dia das Bruxas, evento de origem celta e comemorada especialmente nos países anglo-saxônicos. No Brasil, país tão influenciado pelos yankes, as comemorações desse dia atípico ao nosso folclore crescem cada vez mais, ano a ano.

Longe de querer entrar no mérito do patriotismo e nacionalismo, gostaria de analisar a maneira como essa festa é celebrada: pessoas fantasiam-se de maneira lúgubre e mórbida, geralmente com algo associado à terror e morte, e vão, de casa em casa, pedir doces.

Dia especial, comemoração especial. A morte nesse dia é encarada sem o peso de sua realidade. Caveiras e jacks (as abóboras (pumpkins) com sorriso macabro que servem de lanterna na decoração do Halloween), são as figuras mais recorrentes desse dia. Até mesmo meu irmãozinho fez um jack em sua escola (ele estuda em uma escola bilíngue).

Felizes são essas pessoas que resguardam o lado negro da vida para o dia 31/10! Supõe-se que basta esse dia para que reparem nas coisas sujas da vida. Meu Halloween não possui data especial, tampouco lugar especial para ocorrer. Está em cada rua, calçada, casa, prédio, elevador, enfim, está no sorriso cínico daquele que engana e manipula, tão mais cruel que a perversão de um serial killer. Meu Halloween está nas notícias de estupro, de seqüestro, de tortura, de pedofilia. Mas aqui não há nenhuma bruxa que deseja apenas engordar as crianças para comê-las, há algo ainda muito pior do que a fantasia exacerbada deste dia anglo-saxão. Algo real.

Meu Halloween está também na mendiga que, maltrapilha e fedorenta, olha-me suplicante da calçada em que está despejada, e não pede "Doces ou Travessuras", mas dinheiro para alimentar seus filhos. Meu Halloween é eterno e ninguém nunca se despe de suas fantasias, pois estão coladas à pele, inseparáveis. Meu Halloween ocorre durante 364 dias do ano, quando ninguém acha graça do tétrico, mas tétricos são, na medida do socialmente aceitável.

O Halloween está bem à nossa volta. E não há nenhuma Inquisição que dê conta de acabar com essas bruxas.

1.11.07

How much?

Visito muitos blogs por dia. Gosto de ver o que as pessoas têm a dizer ao mundo, o que elas pensam, o que sentem. Alguns blogs se destacam, são comandados por verdadeiros blogueiros-mestres, caras que conseguem inventar histórias fantásticas e dar personalidade ao seu site. Num desses blogs, vi um link escrito "How Much Is Your Blog Worth?". Animado, resolvi ver quanto meu blog valia. O blog fodão onde achei o link valia mais de US$23.000. Uau! O meu deve valer uns 10 mil então!



Shit happens.

31.10.07

Ao sabor das mudanças

Descobri, assim, do nada, que gosto muito de cozinhar. Deve ser genético - minha vó, minha tia e uma das minhas irmãs são craques na cozinha - ou só um hobby passageiro. De qualquer maneira, sempre quis fazer gastronomia (num primeiro momento só para conquistar garotas mais facilmente, mas depois como um desejo real, sólido).

As cobaias são os caras que moram comigo, mas por enquanto eles têm elogiado a comida. Um deles disse que eu cozinho melhor que a tia dele (não sei a condição mental e física da coitada, mas suponhamos que ela é alguém capaz de cozinhar coisas razoavelmente comíveis).
Não cozinho muita coisa, mas gradualmente tenho aumentado meu repertório: arroz, strogonoff, gnocchi, macarrão à bolognesa, etc.

Os sonhos vão mudando, de qualquer maneira. É raro encontrar alguém com um sonho fixo, desses que a gente vê em desenhos japoneses, em gibis. Eu já começo a pensar em ganhar dinheiro como advogado para depois abrir um restaurante. Sonhos ao sabor dos ventos? Não sei. Mas desde que seja um vento saboroso, eu não ligo de me entregar à culinária ou a qualquer outra coisa que me traga felicidade e prazer.

28.10.07

Um pouco de Pessoa

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa

26.10.07

Café sem Aroma de Mulher

Os relógios alinhados ao horário de Brasília, no devido horário de verão, 3 horas a menos do que a caduca linha do meridiano de Greenwich, batem 6 horas. Bate junto com eles o sino da catedral ao lado de casa. É a hora que as andorinhas e as pombas voam, assustadas.

Na cozinha, fico ouvindo a hora nostálgica. São dezoito longas badaladas. Na garrafa térmica, o café fumega.

Viro o primeiro gole. Amargo, quente, revigorante. Meu café tem um gosto sóbrio, sério, parece café de alguém que há muito tempo faz café, mas sem notar o café.

Reprovo. Nunca gosto do meu café. Gosto mais do café da minha mãe. O café da minha mãe tem gosto de abraço. É amargo, como todo café, mas já na garganta ele parece um veludo, é um senhor café.

Lembro do café da máquina de café do Centro Acadêmico do meu curso. Um café empiriquitado. Café de máquina chique. Tem uma espuminha que mais parece uma pluma de pavão, tem gosto de uma bela mulher provocante.

O café do restaurante universitário é um café simples. Ele tem gosto de juventude. É feito por pessoas que sabem do que os jovens gostam. Mas é um café que não deixa marcas depois de bebido. Insipiente como todo jovem prepotente e pretensioso.

Mas, apesar desses vários cafés dizerem algo a mim, sinto que o meu café não diz nada a ninguém. Vou colocar mais açúcar. Alguém está servido?

24.10.07

Voltaire não sabia o que era ingenuidade

Meio-dia. Uma hora de muitas sensações chatas ao mesmo tempo: cansaço pelo dia de aula, sono pela noite mal-dormida, preguiça pelos trabalhos e tarefas adquiridos, e fome, muita fome. E para ajudar, nesse dia, em especial, um repentino frio que pegou a todos de surpresa.

O aquecimento global atinge Londrina de uma maneira inusitada: faz frio quando deveria fazer calor e vice-versa, na hora do almoço é comum fazer muito calor, mas nesse dia, misteriosamente, a hora do almoço estava mais gelada do que o começo da manhã. E chuviscava.

Andando apressado, cheguei ao RU, o restaurante universitário, onde peguei minha senha e esperei a hora de entrar (sim, temos que esperar...) enquanto uma espécie de Olodum cover fazia as vezes de atração para os estudantes do lado de fora.

Apesar da senha, que deveria agilizar a entrada no RU, a personalidade brasileira prevaleceu: entrei numa fila. Brasileiros nunca vão se livrar das filas, tá no sangue.

Beterraba ralada, não quero, obrigado; frango xadrez, pego, lógico; macarrão fusilli, também; arroz, feijão...sempre peço menos, por que eles acham que como igual a um pedreiro? E, por fim, suco tonalidade laranja (mas eu gosto mesmo é do suco de amarelo claro).

A hora de achar um lugar para sentar é meio incômoda. Mas sempre surge um lugar. Estava acompanhado de um amigo, então dois lugares bastavam.

Estava sentindo que o frango tinha um gosto doce e que graças ao bom Deus o macarrão não estava duro quando ouvi uma menina falar mais alto que o normal atrás de mim. Ela falava sobre Deus, o cara que amoleceu meu macarrão:

- ELE É TUDO, MEU! É DEMAIS! NOSSA...

Apesar do tom elevado, e de várias pessoas estarem virando a cabeça para ela, eu ainda não me ligara naquela maluca, estava tristemente pensando que meu frango tinha gosto de banana. Fiquei divagando até que não deu mais para ignorar, virei a cabeça e vi que ela discutia com dois caras que faziam o estilo skatistas hardcore.

- Seus pais são missionários também? - perguntou um deles a ela.

Eu realmente não estava interessado em saber sobre a vida da pregadora mirim, então ignorei o diálogo subseqüente, mas a reconheci depois de algum tempo. Eu a havia visto no dia anterior, no ponto de ônibus: ela vestia uma camiseta escrito Missões 2007 ou algo que o valha e ficou me encarando durante algum tempo, ao que me indagou:

- Quer?
- Ahn?! Quero o quê?
- Bombom - e abriu uma caixa que segurava nas mãos, revelando vários bombons de cara boa.
- Ah...não, obrigado.

"'Quer'? Que menina mais avoada! Será que ela ia cobrar? Quem diz 'quer?' não quer dizer 'quer comprar?', ah que fome!"

Mas voltando ao RU: a menina agora falava sobre como Deus era bom e que todos alguma hora morriam e que Deus dava a vida. Penso que os skatistas estavam zombando dela e ela, bem solícita, pôs-se a defender sua fé, mesmo que para isso tivesse de gritar durante meu almoço.

Ri, sarcástico, para meu amigo. Mas não quis criar polêmica com ele. Passei a pensar comigo mesmo: religião é um desses assuntos que emputecem as pessoas, deixam o pavil curto. Mas não acredito em Deus. Não no Deus que os cristãos crêem. Meu Deus é uma entidade mais transcendental, potencial, metafísica, unificadora. Crer no Deus cristão é uma grande furada. É assumir que Deus falhou, é concordar que Nietzsche, nas palavras de Zaratustra, estava certo, "Deus está morto", e isso é inadmissível, pois Zaratustra tem que morrer, meus caros. Acreditar no Deus católico é ignorar fome, guerra, dor, miséria e vida sub-humana. Se existem essas tragédias, então Deus é permissivo, tapou os olhos a nós? Eles MERECEM isso? Por pecarem? Ou por que são pobres e isso é fruto do homem?

O homem tem um grande poder de ação na Terra. E isso, mais do que tudo, demonstra como Deus, mesmo que exista, está bem quieto em seu canto. Convenhamos, não é tarefa dele ligar para 6 bilhões de vermes. No máximo, ele manda alguns subordinados fazerem o serviço. Deus é potência, simplificando as idéias de Aristóteles, tal qual um motor que gera vida, harmonia entre as coisas, num nível não percebido por nós, ou esquecido por nós. A idéia é essa: Deus pode gerar, mas não intervir. Quem mexe os pauzinhos é o homem. E o tempo/espaço só vem a dar dimensões maiores ou menores sobre isso.

Meu Deus é muito mais plausível, Herr Papa.

Os caras com os quais a missionária estava discutindo haviam se levantado e ido embora. Ela então olhou em volta e, voltando-se para meu amigo, pediu para ele, um desconhecido para ela, olhar e cuidar da caixa de BOMBONS dela, enquanto ela ia não-sei-onde.

Fiquei com pena. Em que realidade esta garota vive?

malditas maldições

As maldições chegam até mesmo ao blog...

Quem me passou a praga foi a Karen.

1. Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2. Abra-o na página 161;
3. Procurar a 5ª frase, completa;
4. Postar essa frase em seu blog;
5. Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6. Repassar para outros 5 blogs.

"Você me preocupa, Josef! Serei franco. Estou realmente preocupado com você. Porque uma beldade russa desconhecida conversou com você, quer tratar de um maluco que não quer ser tratado por uma doença que nega ter. E agora me diz que deseja fazê-lo grátis. Diga-me - disse Max, apontando o dedo para Breuer -, quem é mais maluco: você ou ele?" (Quando Nietzsche chorou", Irvin D. Yalom).

Não quero amaldiçoar ninguém, thanks.

23.10.07

Tchaikovsky´s headbanging

Nunca fui um cara muito preso aos gostos. Vou do rock à música clássica em dois cliques no Winamp, ou de Chico Buarque a Napalm Death em uma questão de segundos. Ficar preso num certo estilo me enjoa facilmente. Com isso, até dá para ser chamado de eclético.

Enfim, as bandas que conseguem juntar muitos estilos num estilo próprio e original, por esse motivo, sempre me fascinaram. Recomendo aos que me lêem (eu juro que não vou me acostumar a tirar esse acento daí com as novas regras ortográficas) que ouçam Mod Flanders Conspiracy. Eles conseguem misturar heavy metal, hardcore, jazz, rap, música latina, pop, entre outras coisas, com uma harmonia e uma facilidade que dão até gosto. Pena que a banda acabou, mas não desanimem, a internet deixa tudo imortal.

Fica a dica.

20.10.07

Não pense!

Aproximadamente 200 anos a.C.:
Pessoas juntavam-se na ágora e gozavam do ócio, enquanto faziam filosofia.

Aproximadamente 800 anos atrás:
Sábios filosofavam em mosteiros e santuários.

Há 200 anos atrás:
Grandes mestres desfilavam seu conhecimento filosófico nas Universidades.

Há dois minutos:
Filosofo enquanto lavo louça.

17.10.07

Saúde!


O sorrateiro e súbito vento carregado de poeira passa pelas minhas narinas, causando um sonoro e úmido:

- ATCHIM!

Estava num ponto de ônibus, onde a enxurrada, devidamente contida pela educação das minhas mãos (não quero contaminar ninguém), foi seguida de um robótico e aleatório:

- Saúde!
- Obrigado, respondi tão mecanicamente quanto.

Não falo amém pois não sou católico. Mas o "saúde!"...engraçada regra de etiqueta que rege a sociedade. Não é algo que se ensina na escola, e tampouco é um mantra de mães zelosas e rígidas nas casas. Muito menos a Globo veicula matérias em sua programação a respeito disso, mas todos, todos sabem que um espirro deve ser seguido de um educado "saúde!".

A própria idéia de que falar isso é um sinal de boa educação porta-se como fato excepcional. É difícil notar sinais de que as pessoas deliberadamente executam boas ações hoje em dia. Dar o lugar para os idosos sentarem no ônibus, ajudar alguém a carregar sacolas de compra, abrir a porta para alguém passar...muito pelo contrário, as pessoas na verdade deliberam contra isso: "Velho uma ova! Não tenho que dar lugar a ele!"; "Estou com pressa, ele que se vire para pegar outro elevador!", etc...

Apesar dessa má-educação consentida e praticada em larga escala pela civilizada sociedade brasileira, não há ninguém que resista a um espontâneo "SAÚDE!" após um espirro, barulhento ou não, tímido ou não, molhado ou não. Espirro é espirro. A pessoa franze o cenho, abre as narinas, a boca, puxa o ar e solta todos os microorganismos que tem direito. Espirro é espirro e saúde é saúde. Todos sabem disso, ninguém sabe direito como aprendeu a falar, mas todos dizem, quando necessário.

Essa atitude tão arraigada, entretanto, ninguém faz idéia de que era o próprio sinal da cruz surgido contra a pandemia mais violenta que assolou a humanidade no século XX.

Era a própria resignação perante a Gripe Espanhola (ou Assassina), a mãe da SARS, da Gripe Aviária, as potenciais grandes doenças do nosso contemporâneo mundo...

Naquela época, um espirro era provavelmente uma predestinação de morte. Tal qual hoje, mas com o ardor e a pena de alguém com dó de um provável defunto, ao contrário da mecanicidade dos cumprimentos formais aprendidos desde cedo por nós hoje em dia, dizia-se, educadamente, e por comoção: "SAÚDE!".

15.10.07

Whatever People Say I Am, That´s What I´m Not

Em ordem alfabética:

Alienado, ajeitado, amoral, aplicado, arbitrário, arrogante, banana, bastardo, beiçudo, bicha, bravo, brigão, bucetudo, cafajeste, canalha, cínico, complexo, complicado, covarde, cuzão, danado, dedo-duro, delicioso, divertido, doido, errado, fanático, fanfarrão, ferrado, filho-da-mãe, filho-da-puta, foda, fodido, fulo, garanhão, Gargamel, gay, homossexual, ideal, idiota, imbecil, imoral, incompetente, inconseqüente, infame, intelectual, jumento, lamentável, lindo, macaco, mané, maníaco, metido, mimado, motherfucker, noiado, ordinário, otário, paga-pau, puto, rabugento, ranheta, ridículo, sádico, selvagem, sodomita, tarado, tímido, tonto, tuia, vacilão, velhaco, vítima, vulgar, etc...etc...

Eu não acredito em passado.

10.10.07

Nelson, o Desprezível

- Estava molhadinha, disse-me Nelson.

Caramba. Nelson era um cara doentio. Olhava-me com olhar desvairado, o cabelo desarrumado, ensebado, devido ao uso do chapéu panamá milimetricamente feito sob medida para o uso do distinto senhor. Rodava-o na mão direita, enquanto que, com a perna cruzada ao estilo intelectual, remexia o pé ao som de bossa nova.

- Molhadinha, prosseguiu ele. Na fila do parque!

Cheguei nesse estranho clube há alguns instantes, onde fui diretamente conduzido à presença do Sr. Nelson, que me aguardava. Devo salientar que eu estava no século XXI, 2007, usando meu computador quando, de repente, fui tragado para o que parece a década de 50. "Alguém deve ter me dopado com lsd, só pode!", penso.

Calça jeans apertada, camiseta amassada, cabelo e barba por fazer. Eu comparava-me ao restante dos homens no estabelecimento, todos com seus ternos de linho devidamente arrumados, além dos bigodinhos bem ajeitados por algum barbeiro experiente, quando o Sr Nelson começou a falar da molhadinha, após nos apresentarmos pelo primeiro nome.

- Que molhadinha, senhor?
- A burguesa, Victor. No parque.

Seria possível? Um cara todo chique, da década de 20 (de 20!) falando de molhadinha? Ele é tarado? Não consigo associar uma época tão distante com pessoas taradas. No século XXI tudo bem, as molhadinhas estão a um clique de você, mas...numa época em que meus avós estavam na juventude ainda...impossível!

Não, pensando bem, essas coisas são as mesmas em qualquer lugar. Em Teerã agora deve haver algum aiatolá falando de molhadinhas também. E a rainha Vitória também provavelmente tinha seus momentos lá no UK do século XIX...

- Não estou entendendo, senhor, pode, por favor, me explicar como vim parar aqui? Sou do fut...
- Vou contar-lhe meu caro, e isso vai me render muitos aplausos, ah!, já os ouço!
- Bem, vá em frente...
- Duas lindas garotas, amigas, criadas nas mais pacatas casas, daquelas que transbordam sutileza e eufemismo. Uma cultura toda voltada para algo cristão, me entende? Duas...santinhas, por que não dizer?
- Sei bem.
- Resolvem ir ao parque que chegou à cidade. Você sabe, esses itinerantes...
- Prossiga.
- Chegando lá, deparam-se com um choque!
- Qual?, respondi, ficando mais interessado.
- As pessoas que estão lá não correspondem ao seu mundo. São pessoas diferentes. Criadas de modo diferente. Não-santas. Sem o zelo de pais cuidadosos e, cá entre nós, hipócritas. Pessoas que nos convencemos a chamar "reais". Uns belos de uns depravados. Consegue me entender? Imagine o que diabos fariam se vissem dois anjos caírem no Inferno sem suas asas...
- Atrocidades..., concluí, fazendo uma careta ao imaginar a cena.
- Sim, logo ficaram de olho nelas. O parque é num lugar distante, periférico. Na periferia impera outra moral, apesar das mesmas leis. Outro mundo....
- Então, ele continuou, elas, com um sentimento novo, de medo ao desconhecido, dirigem-se à fila da montanha-russa, doidas que estavam para sentir o frio na barriga. Vão sentir de fato!
- Sem suspense, senhor!
- Ah não, o suspense é o melhor. É a boca do leão ao redor do pescoço da presa! Mas, enfim, continuando. Estão elas na fila, olhando, temerosas, ao redor. Vendo que a fila começa a engrossar, pessoas começam a cercá-las. Sorrisos doentios, alguns dentes podres, parecem hienas em cima da carcaça. Há um certo cheiro selvagem no ar e, logo, as coisas começam a sair do controle.
- Não há quem as proteja? Um guarda? Seguranças? Pessoas de bem?
- Transformaram-se, ou não ligam, como é o caso do guarda que está ali a namorar a Mariazinha. O resto deixa a máscara de lado e começa a dar vazão ao animal dentro de si. Conhece Sade?
- O Marquês? Ah sim, conheço. Mas...pare...é desesperador!
- É natural, digamos.
- Ora...
- Eles prosseguem. Os mais descarados já as agarram, esfregam suas partes nelas, outros as tocam, levantam suas inocentes saias. Elas estão acuadas, paralisadas, como a vítima do veneno do escorpião.
- Pare de ver Discovery Channel, Senhor Nelson!
- Como?
- Ah, nada, desculpe-me. Isso é algo real?
- É algo que ouvi e aumentei ali, editei acolá...
- Ah, então há o dedo do senhor por trás disso...
- Algo mais que o dedo, meu caro...
- Você é tarado...
- Hehe, e Nelson escancara um sorriso de escárnio, a mostrar dentes brilhantes.
- Mas deixe-me terminar a história. Uma das meninas, evocando toda a santidade do seu lar, e as palavras do padre que ela guardou como pérolas para si, chuta o saco de um dos safados e consegue fugir, saindo correndo em disparada, sem nem ao menos olhar para trás. Correndo...pela vida.
- E a amiga?
- Essa estranhamente amoleceu os músculos e os tendões. Cinco grandes rapazes a seguram, seu olhar está meio longe e o que mais se nota é que está molhadinha. E curiosa por um mundo novo que a virilidade dos nossos varões estão para demonstrar a ela.
- Oh meu Deus...não creio.
- Pois creia, se há as que gostam de apanhar, por que não as que desejam isso?
- Isso não é meio...machista?
- Não se deixe intimidar por elas, meu caro.
- Então termine de uma vez a maldita história, digo aborrecido.
- Não há mais muito o que falar. Roupa rasgada, animais, olhares reprovadores mas coniventes dos transeuntes. Eles não foram uns cavalos, tanto que ela teve um orgasmo. Dois, digo. E logo na primeira vez!
- Ah sim, difícil de acreditar.
- Foi assim que aconteceu. E Nelson acendeu um cigarro, tragando-o e dando após alguns instantes uma baforada em meu rosto.
- A mocinha santa que se revela. É, já ouvi algo a respeito. Mas não tenho nenhum interesse em saber o futuro de distinta dama.
- Ele existirá de algum modo, rapaz. E, se não quiser se atrasar, o seu bonde vai partir ali atrás daquela porta em 3 minutos. Foi um prazer conversar com você, até!
- Adeus, Nelson.

E saí andando. Sem querer olhar para trás. Que sujeito bizarro! Que mente insana. Mas, há um eco de verdade...enfim, já estava quase chegando na porta e colocando a mão na maçaneta quando um garçom me alcançou.

- Senhor Victor, mandaram isto para você. E me estendeu um bilhete.

Ao desdobrá-lo, li:

Nunca as deixe intimidá-lo. Nunca.
Ass.: Nelson Rodrigues

Bati com a mão na testa. Deveria ter percebido. Abri a porta e voltei misteriosamente à minha cadeira em frente ao computador. Escrevi um pouco e, então, dei enter.

9.10.07

Onde estou?

7:10am

O relógio toca, trazendo-me de volta de um mundo distante qualquer. Claridade. Droga, não adianta colocar uma colcha na janela, não é a mesma coisa que uma cortina com blackout. Que dia é hoje mesmo? Vamos ver, feriado é dia 12, então a última sexta foi dia 5, hoje é, sábado, domingo, segunda, segunda dia 8. Aaaaaah, que saco, não quero ver a cara velha do professor. Preciso de um abraço.

Ok, chega de manha, não posso mais faltar, vou rodar na matéria desse jeito, vai, levanta Victor.

Abro os olhos, fixando-os no teto e dobro os joelhos, levantando-os para cima. Se eles ficarem assim não volto a dormir. Por fim me levanto, como se carregasse uma tonelada de peso nas costas no caminho da cama ao banheiro.

O rosto amassado e sonolento não é a melhor das visões para uma manhã tão bela.

Arrumo-me. Tomo um leite. Duas colheres e meia de nescau e uma e meia de açúcar, sempre, desde criança. Sem pão, sem manteiga, sem torradas, sem suco, sem nada, para desespero da irmã nutricionista e da mãe zelosa. "O café da manhã é a refeição mais importante!". Mas esse enjôo matutino... Se colocar qualquer coisa no estômago temo devolvê-lo violentamente pela mesma via de entrada.

O elevador demora. Não é lá muito fácil para o Atlas Schindler chegar ao vigésimo andar, o último, do condomínio residencial Centro Comercial Souza Naves. Mas ele chega, sempre chega. O melhor dele é sem dúvida o espelho. Ele me diz se eu derrubei pasta de dente na camiseta, se meu cabelo está despenteado atrás, se ainda há remela no olho, enfim, é um bom companheiro observador.

À rua, um bosque, uma praça, uma concha acústica, banca de jornal. Vários elementos ao redor me fazem pensar que estou no centro de São Paulo, ao invés da cidade interiorana do Paraná. Essa logo aparece, pois, por mais que prédios altos me cerquem, ônibus poluidores cruzem meu caminho, letreiros luminosos ofusquem minha visão, aviões barulhentos trespassem o céu e toda a estrutura de uma grande cidade se perfaça ao meu redor, ao cruzar a praça próximo ao terminal urbano, galinhas e galos cacarejam aleatórios a todo aquele movimento, como se ainda vivessem num sítio qualquer, a viver alegremente procurando por minhocas suculentas, tão alegremente quanto os velinhos sentados ali no banco, observadores mais do que atentos da vida alheia, sempre calmos, provavelmente mais do que prontos para uma partida de gamão e dominó.

Com esse contraste, fico perdido. Em que mundo estou mesmo?

7.10.07

Estréia temida

Não é o primeiro nem o último, mas, no blog, figura como estréia. Com vocês, um poema:


Teatro Red Fox

Olhando mais atentamente
Nada é o que parece ser,
Aquele que finge mente?
Ou finge por que tem de fazer?

Como numa encenação da demência,
Assistamos ao teatro da essência:

Por trás do íntegro e correto
Há um imoral e vil desafeto,
Por trás do feliz e alegre
Há um deprimido ardendo em febre,
Por trás do querido e idolatrado
Há um inseguro e descontrolado,
E por trás de muita religiosa
Há uma puta toda pomposa.

Apenas atrás do Triste nada sobra,
Assiste o mundo numa platéia
De uma pessoa só. E aplaude surpreso.
Platéia-mundo às vezes o reverencia,
Mas riem.
“Monólogos são um horror!”, desdenham confessos,
Isso, no entanto, o Triste não sabe se quem disse foram frentes ou versos.

3.10.07

Suposições

Ficar sem acesso à internet é uma coisa difícil, ainda mais para um cara viciado como eu. A gente fica sem o que fazer e daí tem que...viver.

Mudei-me ontem para o ap novo. Logo trago fotos aqui, falo mais acertadamente sobre ele.

Infelizmente, a Copel, empresa que cuida da luz e energia de Londrina, não ligou a luz a tempo da minha mudança. Fiquei num apartamento grande, frio e escuro. Estava sozinho, os outros meninos só devem mudar mais para frente.

À luz de velas, estava retirando roupas das malas, quando a fome bateu.

Na portaria:

- Com licença, você conhece alguma lanchonete boa aqui perto, uma barraquinha de lanches, sei lá?
- Bem, aberto agora só deve ter essa aqui da galeria, falou o porteiro com cara do cantor Latino, que me olhava com certo desdém.

Embaixo do meu apartamento, e ao lado, há uma galeria de lojas, entre elas uma lanchonete, daquelas antigas, onde você pode sentar em frente ao balcão para comer.

Chegando lá, sento ao lado de um cara de uns 40...50 anos, que bebia uma Skol, sozinho. Viro a cabeça em direção a ele, para olhar os preços dos lanches que estavam numa daquelas telas pretas com letrinhas amarelas que estava atrás dele. Ele deve ter pensando que olhava para ele, pois me encarou assustado.

À garçonete:

- Boa noite, um cheeseburger e uma coca de garrafinha, por favor. (existe algo melhor que coca de garrafinha?)

Comecei a olhar para a TV, começava o Jornal Nacional. Um olho meu via a chamada das notícias feitas pela cara-de-bosta da Fátima Bernardes e pelo topetudo do marido dela. O outro olho, de esguelha, ainda reparava que o homem de 50 anos continuava a olhar pra mim.

"Porra, que cara gay! Pára de me olhar!", pensei.

E foi nesse olha-não-olha que comi o lanche, me limpei com o guardanapo barato, bebi minha coca e ouvi do cara:

- Cara, olha que idiota, não tem lógica, qual a diferença de um americano e um misto quente?
- Sei lá, não é a mesma coisa?
- Um ovo! No americano vai um ovo. E olha o preço. Americano 2,80 e misto quente 3,00. O cara não sabe cobrar.

Jamais dei uma risada tão forçada. Ele continuou:

- Já no X-Egg e no X-burger, a diferença é maior. O x-egg é mais caro, tem lógica? Um ovo!
- É, o cara cobra aleatoriamente.
- O cheeseburger é 1,30 mais caro que o burger simples. 1,30 por uma fatia de queijo?

Estava quase implorando para ele parar com aquilo. "Esse cara é viado ou não? Não amola!".

Voltei minha cabeça para a televisão, fiquei quieto, a Fátima começava a falar da ONU. O cara pelo jeito resolveu me levar a sério:

- Muito legal a apresentação de vocês ontem no simpósio. Vocês falam bem.

Olhei para ele surpreso.

- Você estava lá?
- Tava.
- Estuda lá?
- Aham, vocês são da UEL, né? Terceiro ano?
- Primeiro, e você?
- Terceiro mesmo.

Ele se referia a um simpósio duma faculdade particular de Londrina no qual eu e mais dois amigos apresentamos um trabalho sobre Direito Ambiental.

Não era gay coisa nenhuma, era alguém que me reconhecera por eu ter falado em público.

Bonner falava sobre Mianmar.

- Quando não há interesse, os EUA não vão lá tacar bomba, né?, atalhei.
- Haha, magina.

E depois disso nos colocamos a discutir sobre a intromissão do humanismo no Direito Penal. E não querendo perguntar o nome do colega, fui embora, alegando que tinha que terminar de arrumar a mudança.

- Mudou aí pro lado? Bacana. Qualquer coisa que precisar passa lá na Unifil. Falou.

Suposições. Criamo-nas para nos proteger? Por preconceito? Medo? A maioria das pessoas evita uma conversa com um estranho custe o que custar. Algumas evitam até mesmo com seus conhecidos. Ninguém mais presta atenção naquilo que o cerca. O mundo está ficando quadrado e o medo faz todo mundo viver morto. Onde estão as iniciativas? A vergonha acanha todo mundo, e vivemos sempre comedidos e cautelosos. Não quero um mundo assim.

Se não estivesse doente, pedia uma Skol e ficava lá, a falar mal do sistema prisional brasileiro com o cara.

28.9.07

Duas coisas que me irritam

Hoje a Thais precisava fazer uma entrevista para algum trabalho doido do curso de psicologia dela. Sobrou para mim.

Eu precisava apontar algumas qualidades e alguns defeitos que possuo e depois ir discorrendo sobre um deles.

A lista de defeitos estava bem maior do que a de qualidades (sim, sou autocrítico!), e numa certa hora, marquei "irascível" nela.

- Ira o quê? Que é isso?, perguntou a Thais.
- Irascível, hum...pavil curto.
- Você é ofendidinho, isso sim...!
- É a mesma coisa.

A minha ira é provocada facilmente, embora eu a mascare muitas vezes através do sarcasmo. Duas coisas me irritam demais, entretanto, ultimamente.

A primeira delas é a solução normativa encontrada pela dona da minha pensão nos últimos tempos para resolver alguns conflitos que a desagradam dentro de sua pensão.

Por exemplo, tempo de chuva, ventania, de repente, a porta que dá acesso ao quintal bate com força, fazendo um enorme barulho.

Pah. Pronto. No dia seguinte, um bilhete escrito "feche bem a porta" está pregado na porta que bateu outrora.

A torneira da pia está pingando. Pah. No dia seguinte, um bilhete escrito "feche bem a torneira" está lá fixado, em cima da torneira.

E assim vai com porta de geladeira, utensílios, paredes, mangueira. Tudo. A sanha normativa da tão comentada dona da pensão faz tremer Hans Kelsen, o positivista (virgem). Qualquer dia vou precisar de um código para viver naquele lugar. MAS FELIZMENTE ESTOU ME MUDANDO DE LÁ semana que vem.

A outra coisa que tem me irritado é, TCHARAM, o comportamento feminino.

"De novo, Victor?", muitos diriam. Certamente. Desde que me entendo por gente, as mulheres acham sempre novas maneiras de me deixar louco.

Páro e penso: "não é possível que em pleno século XXI as mulheres ainda funcionem à base de desprezo!".

E ainda assim é. Você vai e despreza um pouquinho a mulher. Lá estará ela, o amando, a seus pés.

A ordem é pisar. Pise e seja amado.

Se fizer de outra maneira, prepare-se, o pisado será você. Experiência mais do que própria.

Irritante, meus caros, irritante.

26.9.07

Nem tão perto assim, estranho

Não sou lá como as mulheres, que reparam nos mais mínimos detalhes daquilo que as cercam, mas acho que posso dizer com tranqüilidade que sou uma pessoa observadora.

Gosto de observar, por exemplo, os funcionários que trabalham na locadora onde costumo alugar filmes.

Não são muitos, e me arrisco a ir construindo o perfil de cada um. Há o cara que tem jeito de ser gerente: uns 40 anos, calvo, baixinho, educado. O mais engraçado dele é que ele vai baixando o tom da voz enquanto fala, o que torna o final das suas frases irreconhecíveis:

- OPA, E AÍ, GOStou do filme?ahsimtotalmentehistóricoetal...

Há também o típico nerd cinéfilo que tinha como ponto alto da vida estar ali, trabalhando entre filmes. Também tem uma morena que costuma me irritar com sua desfaçatez e cara de "foda-se você". E há a ruiva, misto de Uma Thurman com Franka Potente, sempre muito comum comigo. Nesse dia, especificamente, ela veio em minha direção, me atender:

- Oi! Posso ajudar?
- Ah...você tem Closer aí?
- Como?
- Closer.
- Ah, um minutinho, vou ver...FULANO, CLOSER TÁ DISPONÍVEL?!..iih, moço, alugaram.
- Ah, poxa...

Eu devo ter feito muita cara de pena, pois ela ainda não tinha ido embora.

- Você só tava atrás desse? Closer não é tão bom. Eu não gostei! Pera, eu vou te ajudar, posso recomendar outro no lugar?
- Pode...mas eu queria ver justamente por causa disso, as opniões sobre ele são bem divididas.
- Isso é. Deixa eu ver...hum...esse aqui. É mais ou menos o mesmo estilo.
- "Correndo com Tesouras". Nunca ouvi falar.
- È bom!

Levei. Era um filme mediano. Não fez meu tipo, mas acho que alegraria qualquer psicólogo e crítico de cinema. Não tem nada a ver com Closer, já advirto.

Passou-se algum tempo até que eu me dispusesse a tentar alugar Closer novamente. Mas aluguei. A ruiva não estava lá esse dia.

Assisti e, após mastigar o filme, decidi fazer coro aos defensores da película. Excelente filme! Não sou lá muito fã da Julia Roberts. Mas Clive Owen, Jude Law e Natalie Portman juntos é algo que me alegra.

O filme é de uma dinamicidade muito marcante, o tempo passa sem nenhum compromisso, e não respeita nem mesmo o amor, sentimento tão bem retratado nesse filme sexy e sufocante. O amor nas suas mais variadas facetas atuais é lá retratado: amor em conflito com condição financeira, amor vazio, amor falso, amor por status, amor sem compromisso, amor advindo de um simples encontro entre estranhos, que decidem se amar, mas ainda se mostram estranhos um com o outro depois de muito tempo.

A câmera foca ameaçadoramente o rosto dos personagens, como numa referência ao nome do filme, isso ia os desnudando, o que me dava a impressão de estar lendo um livro de Machado de Assis.

De uma hora para outra, os personagens mudam, e o amor acompanha o ritmo insano dos nossos tempos: amor dinâmico, quando na verdade todos esperam que seja eterno. Todos se enganam e jogam entre si, e aí se sobressai o caráter do personagem de Clive Owen, ator perfeito para fazer o papel de um cafajeste dos mais filhos-da-puta: o homem simples que sabe a hora de se impor e entende cada nuance da vida, contornando-o de maneira majestosa, ao passo que o personagem de Jude Law fica às voltas com sua vaidade e amor-próprio, incapaz de superar uma insegurança mal-explicada, o que rende boas cenas entre ele e Owen: dois homens disputando entre si e quase não enxergando mais as mulheres, seus pares. Roberts e Portman, postas levemente de lado, poderiam ter tido mais destaque, pois a impressão que fica do filme é que eram apenas duas bitches doidas para dar. Bem, talvez seja só isso mesmo.

Os pontos altos do filme são os dois protagonistas homens fazendo sexo virtual e a briga entre Owen e Julia Roberts.

Agora só me resta voltar à locadora, bater um papo com a stranger (carreguem no sotaque inglês) ruiva e entender o porquê dela não ter gostado do filme.

Bye, strangers.

listening to:
Institute - Seventh Wave

22.9.07

Morando com baratas e mulheres

Esgueiro-me num canto escuro do quintal da pensão que moro, encurralando uma barata entre duas paredes. Fumaça branca a atinge, fazendo se contorcer em desespero e dor. Ela se vira e fica imóvel, mas não sei se está morta, esses bichos são praticamente imortais.

Mais sensibilizado que o comum, devido ao nojo que este bicho me causa, olho ao redor, procurando por mais baratas. Mas só encontro uma mulher baixinha, 50 anos, me encarando.

- Oi Victor!
- Ah...oi Dê.

Dê é uma mulher estranha, a começar pelo nome, Desdêmona, inspirado em alguma tragédia grega, dessas cheias de preceitos morais. Mas não ligo para as mulheres gregas, bem, talvez só Kassandra, que é a INFP mais mítica que existe.

- Estava matando uma barata. Agora é uma por dia. - digo em tom de crítica.
- Ah...tá na hora de dedetizar então, mas é por causa do calor, elas se reproduzem mais rápido.

Eu realmente não estava contente com as baratas, uma delas, um dia antes, teve a pachorra de fazer cosquinha no meu pé. Imperdoável.

- Victor, me diz, você pretende continuar aqui?

Assustei-me e devo ter expressado isso no meu olhar e na maneira rápida como levantei minha cabeça para encará-la, teria ela ouvido a conversa?

Flashback. Dias atrás
- Oi, mãe! (falava ao telefone), eu e os caras acertamos com o prédio lá no centro! Você precisa ver, ia adorar. É imenso e lindo, mas...melhor não falar nada agora...por causa do...lugar.

Sempre tive a impressão que a Dê possuíse super-audição. Visão de raio-x, ao menos, ela possui, pois sempre sabe quando estou saindo e não perde a oportunidade de soltar aquele odioso: "vai sair, Victor?" com sotaque paulistano carregado e que me dá vontade de gritar e sair correndo.

- Talvez eu tenha que sair da pensão, Dê.

E aqui vou poupá-los de ouvir toda a mentira que criei sobre a minha mãe ter perdido o último cliente dela e não poder mais me bancar e bla bla. Enfim, mas não é de todo mentira. Minha mãe está com um paciente só, tendo que comprar alguns remédios caros, meu pai tem 35783675 de filhos, o que significa muitas pensões alimentícias, e eu poderia mesmo apelar para meu padrinho, mas, sinceramente, eu tenho orgulho demais para isso. Por isso estava atrás de lugar mais barato para morar...de novo.

Podemos tirar alguns exemplos de simbiose da biologia, ou qualquer exemplo de dependência da vida entre seres, mas, tirar R$400 da mão de uma pessoa é motivo o bastante para provocar-lhe uma mudança brusca, como se lhe tirasse algo vital. Coisas assim provocam reações de ordem muito grande, uma forma de proteção. Felizmente a dona da pensão não tirou uma peixeira da cintura e me assassinou. Fez algo pior: começou a falar da vida sofrida dela desde a época das cachorradas do Collor mais ou menos.

Confisco de ativos, inflação, viagem ao Japão, vida amargurada, separação do marido, mulher ciumenta do marido, operação trágica da filha, negação do pai quanto à filha depois da operação, etc. Dê, eu escreveria um livro sobre você, porém, eu ainda estava meio embasbacado sobre a notícia que ela me dera antes:

- Não pude pagar a sercomtel e vão cortar a internet.

Eu disse que reações bruscam adivinham de notícias assim. Então era por isso que ela havia me perguntado se eu iria sair da pensão. Ora, agora eu estava mesmo resoluto. Jamais mexa com meu vício por internet, porra!

Algumas coisas interessantes aconteceram nessa pensão. Não me mudei deliberadamente para ela. Jamais faria isso, apesar de ser uma suíte e ter cozinha própria para os inquilinos. A primeira impressão que tive da Dê, e que veio terrivelmente a se confirmar depois, era a de uma dona de casa chata, intrometida, tagarela e com mania de limpeza. Na época, eu estava de favor na república da Najila - ah que saudades da Najila! - o que também era muito horrível, visto que a Najila nem mais morava lá. Por falta de lugar para morar então, fui empurrado para a pensão.

Uma casa simples, com dois quartos no fundo que são alugados por preços nada módicos. Há a Sharon e a Nathalia, as cadelas, uma rotweiller e uma cocker spaniel, respectivamente. As duas muito bonitinhas, fedorentas e afetuosas, me adoram. Falo sobre a Sharon mais especificamente em outro post.

Há também a filha da Dê, uma adulta que, diz a Dê, recebia propostas para ser modelo. Isso até irremediavelmente cair na armadilha da ditadura da beleza e decidir colocar silicone nas peitolas. Uma reação alérgica quase letal, seqüelas comprometedoras. Ficou quase retardada: não fala direito, não ouve direito, não vê direito, não se movimenta direito. Não sai da casa. Não me viu até hoje, depois de tantos meses. Outro dia perguntou à Dê se eu era japonês...

De fato, esse ocorrido com a filha agrilhoou a dona da pensão a uma vida ingrata, em que tem que se dedicar totalmente à filha. Quem sonha com isso? Quem pensa em viver assim? A Dê é uma mulher sofrida.

Também havia a Giovana, a moradora do outro quarto alugado. Era uma garota de Pato Branco, fazia mestrado, falante, alegre, bonita. Desde o primeiro dia ela conversou comigo como se fôssemos conhecidos a 10 anos. Era como uma irmã para falar a verdade, talvez seja esse o motivo para o fato de eu nunca ter sentido atração por ela. Ela saiu de lá algum tempo atrás, para ir morar com o noivo.

Mas mesmo com lembranças vastas desse lugar que não estou sequer a um semestre, não vejo por que continuar nele. Vou sair decidido, para formar uma república, num ap grande, desses velhos, bem constituídos. Quando mudar coloco aqui minhas impressões.

Até lá, vou dizendo "oi Dê, tudo bem?" aleatoriamente e pedindo um pouco de arroz a essa mulher estranha, cheia de misticismos, que me adverte contra as energias ruins do mundo. Continuo sem ver sua filha e tento ignorar a mulher que entrou no outro quarto, uma balzaquiana que fugiu com um amante, abandonou os filhos e por sua vez foi abandonada pelo amante, jamais estará à altura da Giovana.

E quanto às baratas, que se cuidem...

13.9.07

Muscle Museum

A música começa pacata, lasciva, quase tradicional.

Algumas casas aparecem. Estilo americano, classe média, praticamente não apresentando diferença entre si. Pessoas entram em cena, mostradas em afazeres domésticos, triviais, sem significação nenhuma.

Então surge um decadente palco, num cenário maior, de decoração colorida. Um baile de formatura como os filmes norte-americanos retratam. Porém vazio. Só três pessoas no palco fazem a performance. Matt aparece com um visual latino, de mau gosto. A música prossegue calma.

A sequência cubista mostrando pessoas continua. Um garoto de cueca escovando os dentes, um menino prestes a andar de skate, um sujeito lavando seu carro, uma mulher tomando sol, outra dirigindo, um atleta comendo corn flakes. Diversos quotidianos.

De repente, a guitarra de Matt ressoa mais pesadamente, e uma transformação se passa com as pessoas que antes nada mais faziam do que o habitual: começam a chorar. Alguns por dor física, outros por dor espiritual, outros sem motivo aparente. Primeiramente escorrem algumas lágrimas, mas no decorrer das cenas torna-se um verdadeiro pranto.

Água, lágrimas, baba, pasta de dente, bronzeador, leite, sabão. A profusão de líquidos na história é imensa, jocosa, grotesca. Jorram como consequência de algo inevitável.

E por fim o clipe termina. Mostrando uma rua vazia, de casas praticamente iguais. Num subúrbio de classe média qualquer, ao estilo americano.

É essa tristeza proveniente do cotidiano, do tédio, que sufoca a mais rotineira e alegre das vidas, vinda sabe-se lá de onde, como um grito, não importando condição financeira, social, ou o que quer que seja, é que faz Muscle Museum, música do trio britânico Muse, um dos clipes mais admiráveis, ao meu ver.



Fim de baile.

11.9.07

nova url

Mudança de conduta. E toda aquela velha história de mudança, já tenho uns 20 posts assim por aqui.

Mudei o nome da url do blog porque fiquei do saco cheio do Zaratustra. Ele falava, falava, mas na prática. Bem, só tentando para saber.

Nietzsche e toda a lógica destrutiva dele vão pro além. De agora em diante, Zaratustra Tem que Morrer, assim como Romeu.

Deus morreu? Rá. Quem morreu foi o Super Homem, meus caros, já que ninguém deu ouvidos ao velhote mesmo.

10.9.07

Não saia andando!

Café, café, muito café.

É preciso café para agüentar uma madrugada inteira de viagem. E gemada também.

Cheguei às 5. Fui tentar dormir às 5:30. Desisti às 6. Fiz o café da manhã às 6:30. E agora falta uma hora para começar a aula.

Bom dia com aula de sociologia! Ê maravilha...

Porventura, ocorre-me contar algo engraçado. Não que seja um lugar agradável, mas o pub do post anterior é um lugar de histórias bizarras.

Após quase ser barrado na entrada (aquele gorila que chamam segurança não sabe perceber a bruta semelhança que tem o Victor de 19 anos com o de 10 anos), noto a presença de uma menina voluptuosa a alguma distância de mim. Um rosto familiar. Alguém que eu já vi em Londrina.

É normal ver gente de Rio Preto em Londrina e vice-versa. Arrisco dizer que 1/3 da UEL é formada por rio-pretenses que deram uma banana pra Unesp e Usp e foram tentar a sorte no Paraná.

Sem lembrar exatamente onde já a havia visto, procuro uma mesa qualquer para sentar. Notando a presença chata da garçonete loira ao meu lado, acabo por pedir uma Serra Malte, cerveja bem apreciada no estado de SP.

- Um copo ou dois, senhor?
- Hum...dois, por favor.

Esperava um amigo meu, que teve a gentileza de atrasar muito. Melhor. Mais Serra Malte para mim.

Após muitos tempos, meu amigo e mais algumas pessoas chegam, e então nos dirigimos para perto da mesa de sinuca, único lugar sem 10 pessoas por metro quadrado no pub apertado e fedorento..

Dois agroboys dos mais toscos jogam bilhar de forma a parecerem os fodões, embora a camisa de um deles me lembrasse insistantemente um crente recém-saído do culto. A menina que eu havia reconhecido de Londrina aparece por ali e conversa com o agroboy mais arrumadinho. Quando eles terminam a partida, ela se aproxima da minha turma e convida alguém para fazer dupla com ela e jogar contra os agroboys. O Tyler aceita o convite e vai lá jogar.

Assisto o jogo meio por fora, sentado, sem dar muita atenção, ainda tentando descobrir onde havia visto a guria. Decido fazer uma gentileza para ver se descubro e faço um sinal para o Tyler chamá-la, quando ela se vira para mim, faço sinal para vir até minha direção.

- Oi - e sorrio, esse é o passo importante - quer deixar a bolsa aqui na mesa? - ela ficava entregando a bolsa toda hora para alguém para poder jogar.
- Opa! Demorou.
- Você é de Londrina, não? Juro que já te vi em algum lugar - atalho rapidamente.
- Balada. Você deve ter me visto em alguma balada. Mas não sou de lá. - e então ela falou algo sobre amigos e parentes que eu não prestei muita atenção. O que você faz lá?
- Direito - respondi tão rápido que parecia que havia decorado isso.
- Sério? - vi os olhos dela brilharem - eu vou ser sua bixete ano que vem então, presto esse ano pra lá.
- Mesmo? Legal! Mas vai aprendendo, lá não é bixete, é caloura.
- Tanto faz - e me encantei com a cara de "to nem aí" que ela fez. Eu costumo sair com o povo de cênicas lá.
- Ah...você é amiga da Leona? - perguntei com certo ar de desdém.

Porra, Victor, você estava falando de um gay para uma menina!

- Quem? Ah, espera, preciso jogar.

E então ela não voltou a falar comigo. Nem depois do jogo e tampouco nas duas vezes que esbarrei com ela durante a noite. Imagino a cara de tacho que fiquei. Não entendi nada. Enfim, não conhecia essa modalidade de fora. E olha que eu nem tentei nada, sem falar que ela estava sozinha, nem com amigas estava. Imagino como seria se isso virasse moda. O menino e a menina trocam olhares atrevidos, sorrisinhos colgates e chegam mesmo a dançar, então ele solta qualquer cantada:

- Você vem sempre aqui, gata? - um exemplo esdrúxulo, eu sei.

E ela vai embora, sem mais nem menos. A História precisaria ser reescrita depois disso!

Imagina se a Courtney Love fizesse isso com o Kurt Cobain, ou a Cláudia Raia com o Edson Celulari, ou qualquer casal estúpido acabasse simplesmente por que deu na telha da menina sair andando sem maiores explicações.

Essas coisas tiram os homens do sério. Mas calma, ela não corre perigo no trote do ano que vem. Eu acho.

Ah, esqueci de contar que ao acordar na quinta-feira, dia em que fui para Rio Preto, eu tive a estranha sensação de que conheceria uma menina de Londrina por lá. Medo.

E eu saio andando! Para a aula...

8.9.07

Tiozões alegram noites tristes

Tiozões estão por toda parte.

Vou descendo a rua que me leva ao ponto de ônibus. Na minha mão direita, uma mala pesada, que me faz envergar levemente o corpo para esquerda, como que para equilibrar o peso. Vou pegar o ônibus para ir à rodoviária e de lá pegar outro ônibus, rumo a Rio Preto. Preciso dizer que estou atrasado?

A 100m de distância do ponto, quem eu vejo? O ônibus. Saio correndo, ou tentando fazer isso pelo menos, porque a mala não deixa. Quando alcanço o ônibus, o sinal abre. Nessa hora o cérebro do motorista prevê duas alternativas: a) atrapalha o trânsito e abre a porta para mim e; b) vai embora sem atormentar o trânsito e me deixa na mão.

Dez segundos depois estou no ponto de ônibus esperando outro ônibus passar...

Até o outro ônibus chegar, foram uns 15 minutos de maledicências dirigidas aos motoristas de ônibus e à minha vida que, creio eu, é a única propensa a situações assim, embora eu saiba que isso é mentira.

O 305 pára e abre a porta. Entro. No volante, está um homem gordo muito semelhante àquele ator que faz o papel de Fred Flintstone no cinema. Custo a crer que ele está dirigindo a palavra a mim, ele olha para minha mala:

- Vai ver a mamãe hein?
- Opa!
- Chega de comer miojo, né?
- HAHAHA! Não agüento mais mesmo!

Fico feliz. Não consigo me conter perante pessoas simpáticas. A menina - normal - sentada no banco para deficientes, idosos e gestantes também ri. Quando olho para ela, provavelmente assustado, ela vira a cabeça, envergonhada. Passo a catraca e me ajeito, em pé, num canto qualquer, com os braços trêmulos devido ao esforço de carregar a mala pesada. Ainda bem que nem todos os motoristas de ônibus são chatos.

Mas há mais tiozões no mundo.

Festa de aniversário da minha tia, na casa do meu vô em Rio Preto. Um casal sentado numa dessas mesas de plástico conversa com minha mãe, que me chama, imperiosa:

- Filho! Vem cá, olha só, a amiga da tia Cris é advogada, e o marido dela faz Direito.

Meu cérebro pressente um diálogo chato.

- Aaaaah...é mesmo? Legal! Que ano você está?
- Quinto. E você?
- Huuum. Primeiro! hehe. E você, é advogada mesmo ou concursada?
- Advogada, área cível há 15 anos, não aguento mais!
- Nossa... (imagino a minha tentativa de parecer surpreso essa hora).

De algum modo, a conversa recai sobre o promotor Thales, o que matou um rapaz no litoral de São Paulo. Vendo que todos o abominavam indubitavelmente, tento me divertir, e inicio uma defesa em prol do réu. Sem chance. Todos continuaram o odiando.

- E ele continua recebendo o salário. 10 pau.

Hum, vamos lá, diga algo Victor!

- Em São Paulo o salário é de 10ão? No Paraná em 6 anos subiu de 10 para 22 mil, o Requião inclusive mexeu na previdência para impedir isso, por causa do rombo...
- É, né...São Paulo é uma merda.

Pronto. Arranquei uma confissão agradável da advogada. Papo encerrado. Não, espera...nessa hora eles começaram a falar para minha mãe ficar esperta e investir em mim, pois eu retornaria muito dinheiro a ela. Bastardos! Era só o que me faltava, tornaram capitalista até mesmo a relação mãe-filho.

Mudemos de tiozão.

Pub Vila Dionísio, ainda em Rio Preto. Observo impávido um jogo de bilhar, morno, enquanto divago sobre qualquer coisa respirando a fumaça densa e seca de cigarro que emana daquele bar apertado e mal ventilado. Algumas meninas empiriquitadas passam por mim, entre algumas delas meu olhar cruza com o olhar de um homem robusto, atarracado, com uma pança rígida, cabelo preto comprido e encaracolado. Ele vem na minha direção, alegre:

- E aí, cara!

Cumprimento-o, assustado. Repasso o rosto dele pela minha memória para ver se conhecia-o de algum lugar. Mas o papo que ele puxa comigo logo mostra que nunca o havia visto.

- Caramba, como tem menina bonita nessa cidade!

Rio, achando graça. Mais um tiozão. Se tem algo que a vida me ensinou é que não dá para perder uma oportunidade de diálogo bizarra como essa.

- Você é de onde?
- São Paulo, e lá nunca é assim...
- Já foi ao Paraná alguma vez?
- Maringá só...
- Hehe, pois bem, eu também achava que Rio Preto era muita coisa até me mudar para lá.
- Ah, será? Olha só isso! Oh coisa boa!

Ele olhava para uma menina encorpada, para não dizer gorda, que provavelmente era o ideal de mulher gostosa dele.

- Aproveita!
- Ah não...minha namorada não veio. Mas as amigas dela vieram..
- Haha, entendo isso, então se comporta. Você é da banda que vai tocar, né?
- Sim, hehe, o vocalista.
- Legal. Bem, boa sorte aí então, preciso mijar. Até!
- Até, amigo.

Ao contar depois a história para um amigo meu, ele não se conteve:

- É por isso que a banda dele chama Baranga!

Mas essa não foi lá a melhor noite do mundo. Vendo o show da Tomada, também de sampa, rock´n´roll com uma pitada de Jimi Hendrix, olho para o lado e vejo um cara que eu costumava chamar de ótimo amigo agarrando a minha ex. Prontamente os pensadores saem em meu socorro, revirando-se em seus túmulos.

Sade: "Experimenta usar esta estaca com ela...Mas não, espera! Quero ela como discípula! Quanto sadismo!"
Eu: "Cai fora, depravado!"
Machado de Assis: "Ela sempre te enganou. Como você nunca percebeu? Foram os olhos de ressaca!"
Eu: "Não enche, Machado, ressaca é o que vou ter quando acordar amanhã."
Dostoiévski: "Assassine-a e depois peça perdão a Deus"
Eu: "Socorro!"
Voltaire: "Fala sério. Será que ele iria gostar se você agarrasse a ex dele?"
Eu: "Hum...boa, Voltaire, para falar a verdade, eu sempre tive vontade de fazer isso."
Madre Teresa: "Mas você sabe que ela e você jamais se colocariam nessa posição. Seja por ter princípios, seja por lealdade a alguém que você considerava amigo, seja porque você não é sádico"
Eu: "Isso é bem verdade, minha senhora, talvez mais por parte da ex dele, é uma menina bem centrada e jamais faria algo ridículo assim. Sorte a dele ter tido ela um dia".

Então a Tomada acabou. E entrou a Baranga. Não tinham a mesma pegada da banda anterior. Rock muito cru. A noite amargou (por outros motivos que contribuíram para piorar a noite). Não senti mais vontade de permanecer ali. Resolvi ir mijar e ir embora. Ambos são efeitos do álcool.

Chegando perto do banheiro, esbarro numa amiga minha, velha amiga, sem me dar conta de que o havia feito. Maldita miopia.

- Victor? Tá tudo bem?
- Oi...hum? Ah claro, e você? Vem cá, me leva pra casa?
- Sim, sem problemas...

No carro, talvez por forma de consolo, ela me contou uma história triste, dela. E então suspiramos, trocando alguns silêncios até eu chegar em casa, onde ver Sobrenatural foi a única coisa que me sobrou.

Noite triste. E é só isso que eu sinto falta, um amigo que olhe para mim demoradamente e diga: "poxa, você está uma merda!", e então me abrace, num consolo à la little miss sunshine, sempre infalível. Mas não há ninguém assim.

Tomara que eu não vire um tiozão.

3.9.07

Nada de novo no front 2.0

E vamos deixando para trás o longo mês de Agosto.

O mês de 5 semanas úteis, sem feriados. O mês do meu aniversário. O mês que ferrou minhas economias no banco. Um mês em que eu vi que é Direito mesmo que eu vou fazer e ponto final.

E então começamos Setembro, um mês que eu odeio! E que parece não trazer nenhuma novidade atônita em si.

Bem, para falar a verdade, eu só odeio meia dúzia de virginianos. Mas só porque eles nunca me levam a sério.

The Melvins - Rat Faced
"WHAT?! nothing new!"

28.8.07

A História de Dois Homens Distintos

Levantando o garoto pelo colarinho da camisa já empapada de sangue e suor, o homem de porte alto, vistoso, elegante e aristocrático arremeteu-lhe um último soco. Motivo de três dentes a voar pelo ar e um deles ingerido. Além do sangue espirrado de praxe.

Revelando uma entonação de voz fria e um desprezo descomunal, o homem aristocrático se dirigiu ao menino, mediante um olhar de fúria, ainda que de esguelha:

- Seu merdinha...como pode achar que poderia me ignorar? Ignaro! Trancar-me naquele quarto não foi nada sábio da sua parte. Apenas um verme como você imaginaria que poderia me trancafiar e suprimir minha influência!

E a frase terminou numa exclamação tão gritante e enraivecida que um chute no estômago foi sua exemplificação mais perfeita. E agora o garoto se retorcia, entre tosse, sangue e suor, esforçando-se para respirar. Não creio que ele fosse reclamar, seria bem difícil para ele falar qualquer coisa naquele estado. O homem que batia então resolveu dar-lhe voz, ao se abaixar perante o corpo dolorido do garoto, aproximando dele seu olhar desvairado de assassino:

- Ah! Vejo que você quer se rebelar! O quê? Quer me mandar tomar no cu? Quer xingar a minha mãe? Quer maldizer minha existência? Ora, não me faça rir, seu bosta - mais um chute - há! Você geme de um modo engraçado. Mas não creio que você é de todo essa massa disforme e fraca na qual estou te transformando agora, meu caro, ah não. Você teve audácia o bastante para ir contra mim. De fato, conseguiu me reduzir a nada durante um tempo. Mas cá estou eu! E agora, toma!

E lá se vai um nariz...agora esfacelado.

- Huhu...Veja só. Ignaro! Meus sapatos estão sujos, maldito. Sabe o que mais me perturba em você? Esse papo de amor, de apoio, de compreensão. Até quando vai acreditar na humanidade, little crap? Quantas vezes mais vão ter que pisar em você para que entenda que EU estou certo! Sim...é uma questão de se pôr acima dessas fraquezas. Eis o segredo de minha rigidez. Agora você...bem, você suja meus sapatos com seu amor de merda.

O homem ainda ficou ali, por mais alguns minutos, a sujar seus sapatos entre pisões e chutes, esmagamentos e fraturas, do garoto, lógico. Pisava a cabeça do garoto agora, com gosto, a recordar Orwell e seu terrível ano de 84.

O garoto então agarra a perna do homem, debilmente, extremamente trêmulo, mas resoluto. O asco crispa a boca do aristocrata, que de prontidão se afasta daquelas mãos arranhadas, com um dos dedos tortos de maneira nada natural.

Mas o garoto agarra-o novamente, agora com as duas mãos, firme, se levantando pouco a pouco. Um medo descomunal se apossa do homem, que ridiculamente e, para sua inteira vergonha, fica paralisado.

Aos poucos, o garoto, ou o que sobrou dele, vai se levantando. De estatura muito menor que a do homem, acaba conseguindo alcançar somente até o tórax, onde, com a candura e a audácia de um revolucionário, abraça aquele que o havia ferido. Sangue, suor, tosse e lágrimas.