24.5.11

Ruinaria

Eu matei Zaratustra enfim, mas isso não significa que parei de escrever.

Comecei a cuidar de ruínas agora, então se quiserem continuar acompanhando as porcarias que eu escrevo, visitem o Ruinaria.

Até!

25.1.11

O fim do blog

Não é fácil escrever este texto.

Há exatos quatro anos, publiquei um texto na internet. Era o início do meu blog. Blog que veio a se tornar o Zaratustra tem que morrer.

Hoje, quatro anos depois, percebo que Zaratustra está morto.

Não há mais o que caçar, não há mais texto que caiba aqui.

Eu não sinto mais vontade de escrever neste espaço, perdi a motivação.

Eu ainda amo escrever e continuarei fazendo isto e mantendo meus projetos de contos, crônicas e, quem sabe, um dia em que eu for suficientemente engajado e vivido, venha um romance.

Mas não existe razão para que eu mantenha este espaço.

Foram bons quatro anos caçando Zaratustra e tentando comemorar a imperfeição humana. Hoje, estou diferente.

O fim do blog vem coroar o fim de um ciclo na minha vida pessoal e isso é motivo suficiente para que eu não me identifique mais com este projeto.

No dia do seu aniversário, Zaratustra tem que morrer, eu mesmo, seu criador, o mato. É meu direito.

Descanse em paz.

7.1.11

Realidade

Cruzaram olhares por somente uma vez no corredor atulhado. Estacaram. Deram-se um tempo para que suas respectivas mentes registrassem que de fato eram um e outro. Quando por fim se reconheceram, volveram um passo e abriram largo sorriso, como numa competição para demonstrar quem era o mais contente pelo reencontro.

“Bárbara...”, balbuciou o homem, de olhos surpresos.

“Maurício, quanto tempo...”, gemeu Bárbara, não menos espantada.

“Tempo, é estranho, faz somente cinco dias...”.

“Parece muito mais...”, viu-se Bárbara na necessidade de justificar seu cumprimento.

“Você tem razão: muito mais”.

Maurício segurou-lhe a mão desajeitadamente, entrelaçando seus dedos nodosos aos finos ossos da mão da garota. Ficaram um tempo em silêncio, sem ideia do que expressar. Súbito, sentindo a iminência do constrangimento, Maurício achou por bem, não contudo entendendo o motivo, explicar os cinco dias em silêncio.

“Tive uma agenda lotadíssima, foram mil compromissos, um mais extenuante que o outro. Estou em petição de miséria, queria apenas uma noite de sono tranquila. Temi incomodá-la, já que você está na mesma, pelo que andei percebendo”, explanou sorrindo.

Ela arqueou a cabeça para a esquerda, abrindo novamente o largo sorriso, em sinal de compreensão. Tivera, se não mais, ao menos tantos compromissos quanto o ocupado namorado. Maurício sentiu-se atraído. Ia dizer coisas bonitas, quando foi interrompido.

“Ora, ora, ora! Primeiro e segundo colocados atravancando todo o corredor, o casal mais famoso do Brasil, vamos, vamos, queridinhos, vocês tem que se maquiar, hoje o dia será longo. Bárbara, nada de namorar agora, olha esse cabelo, já pro Fabinho!”.

A interrupção vinha de um homem flácido, de meia estatura, um cavanhaque grisalho a estampar um rosto afeminado. Trajava um blazer de corte moderno por sobre uma camisa rosa estilizada, que denunciava sua atuação como relações públicas do mais caricato. Era Jones.

O casal olhou-o cansadamente. Maurício tendia mais para o puro desprezo. O agente o olhou de cima a baixo.

“Queridinho, nada de ocupar o tempo da minha cliente, vocês vão ter muito tempo para se amar depois, não?”, supôs Jones, pondo a mão sobre o peito de Maurício, que riu o riso mais socialmente aceito que pôde, de modo a não denunciar sua vontade de esganá-lo.

“Preciso de apenas um minuto com ela”, ordenou Maurício numa dissimulação de súplica.

Jones escancarou seu relógio de ouro, enquanto o olhava bufando.

“Whatever, querido. Um minuto. Um!”.

Bárbara balançou o queixo de Jones afetuosamente, tomando em seguida a mão de Maurício e o puxando apressadamente para um quarto qualquer que encontraram livre.

Um minuto havia se esvaído facilmente. Foram necessários cinco minutos para aplacar o beijo caloroso que queriam dar um ao outro. Afagaram-se ora violentamente, ora amavelmente, como num bolero.

“Acabo de beijar a mais nova milionária do Brasil”, regozijou-se Maurício.

“Como se você não tivesse ganhado nada, gracinha”, disse ela, puxando-lhe o cabelo gentilmente.

“Nossa estratégia funcionou muito bem. O Brasil tem um fraco por casais. Dizem que fomos responsáveis pelo maior índice de audiência da emissora”, orgulhou-se o rapaz.

“É que formamos um belo casal, afinal de contas, não acha?”, indagou ela.

“Imagina o tanto de convites que tenho recebido? Até para ficar nu!” – os olhos dele brilhavam.

“Eu também...”, confessou Bárbara.

“Tenho muitos planos em mente já. Quero investir boa parte. Talvez um apartamento na orla de Copacabana, quem sabe? Contratos e contratos, o meu “Jones” é cheio de visões!”.

“Você acha que podemos nos ver nesse domingo?”, arriscou a moça, sem rodeios, com olhos esperançosos.

“Dom... domingo, não poderei, meu bem, perdoe-me, tenho uma sessão de fotos em Sampa”, Maurício levava os olhos ao teto do minúsculo quarto, tentando recordar sua agenda.

Bárbara soltou um muxoxo.

“Bárbara... perdão, gatinha, que tal no próximo domingo?”.

“Eu...”.

“Mais três minutos e pronto, darling!”, gritou Jones do corredor, “já fui muito paciente com vocês, crianças!”.

“Não posso, Mau, me querem de bikini em algum programa, algo como uma banheira e sabonetes, um jogo. Vão pagar bem”, disse ela, de olhar duro.

“Ah sim, entendo”, empertigou-se Maurício.

“Talvez daqui duas semanas”, propôs Bárbara, duvidosa.

“Acredito que sim”, respondeu Maurício sem convicção.

Abriram a porta. Os dedos não se entrelaçavam mais. Não se dançava mais bolero entre aqueles dois corpos.

“Ah, o casal mais bonito do Brasil! O novo casal rico do Brasil! Vão fazer muito sucesso!”, exclamou Jones, histericamente.

Cruzaram novamente os olhares. Dessa vez suas mentes levaram mais tempo para reconhecer um ao outro. O sorriso era mais amarelo que largo.

“Claro”, responderam em uníssono.

28.12.10

Laços

Quando eu ainda era bem pirralho, coisa de quatro anos, chuto, minha madrinha faleceu. Não me culpem, pois, se não lembro dela nos mais nítidos detalhes, senão por fotos e relatos.

Era uma mulher distinta e bonita. Creio mesmo que, por fotos, tinha um ar aristocrático nos traços e no jeito de se vestir. Já ouvi que era rígida, mas sem deixar de ser muito afetuosa. Sempre lamentei não tê-la conhecido a fundo, não ter conversado com ela, não ter recebido broncas e carinhos dela durante meu crescimento. Ela se foi precocemente, em decorrência de um acidente de trânsito.

Não estou a par se todos sabem disso, mas há pessoas que, ao falecerem, imprimem uma marca no mundo tão forte que se tornam eternas. Minha madrinha foi uma dessas pessoas. Como explicar essa saudade sem causa?

Deixou três filhos: R., T. e P: as três marcas grafadas no mundo por minha madrinha.

Eu não pude conhecê-la como gostaria, mas sou grato por conhecer seus filhos: eles brincam que são minha "madrinha substituta" e, talvez, por isso mesmo, eu sinta um carinho especial pelos três e, suponho, o mesmo aconteça por parte deles.

Um padre, uma pesquisadora, um policial. Falar que essas palavras os definem seria zombar da complexidade de pessoas que estimo tanto. Mas, apenas a título exemplificativo, são esses os diferentes rumos que eles tomaram, e o que mais me fascina na vida deles. Cada um a seu modo, todos os três colaboraram para que eu mudasse de visão no momento apropriado.

Conselhos que me tornaram mais ponderado, mais ativo, mais ousado. Eu devo muito ao carinho e à atenção de cada um deles. Eu perdi uma madrinha, mas eles perderam uma mãe. Eu respeito aqueles que aprendem na adversidade. E é justamente essa lacuna que os torna mais humanos e mais admirados por mim.

Eu não pude dizer apropriadamente que a amava, madrinha, mas eu posso dizer com todas as letras que a simplicidade desse texto me permite: eu amo a sua marca eterna no mundo.

15.11.10

Amantes de tempo nenhum

Minha mãe sempre foi uma grande fã de Chico Buarque, provavelmente a maior delas. Desde pirralho, convivo com a voz desajeitada e o lirismo certeiro do homem. Aprendi a respeitá-lo, embora não seja um fã.

Quando ainda era jovem e tolo, gostava de ouvir Futuros Amantes, não sei se pela letra, se pela harmonia, ou se pelo fato daquela música mexer tanto com a mulher que me gerou.

Tenho a impressão que as músicas do Chico são como as flechas do Cupido. Parecem sempre destinadas a alguma mulher interessante que em algum momento da vida ele cobiçou. Não é diferente com Futuros Amantes, a interlocutora invisível está lá, talvez seja uma, talvez sejam várias, talvez ela nem exista realmente, mas toda mulher se coloca ali, no pedestal que Chico erege para suas musas.

Essa bela composição fala sobre um futuro onde o Rio é uma cidade submersa, onde escafandristas remexem os restos e as ruínas do passado, e descobrem traços de um amor já perdido. Bem, essa é a interpretação grosseira e primária. Serve de pano de fundo para os segredos que só existiam entre Chico e a interlocutora.

Minha mãe sempre foi muito boa observadora. Ao perceber que a música me agradava, revelou-me que muitos anos antes, havia escrito uma crônica onde estabelecia a relação entre essa música e a Psicanálise. Para ela, Futuros Amantes seria uma alegoria das teorias desenvolvidas a partir das descobertas de Freud.

Com significados escondidos ou não, Chico teve amores suficientes em sua vida para entender cada palavra de sua obra. Todos reviram o passado em busca de respostas que decifrem coisas tão inexplicáveis no presente. Na agonia e inconstância do presente.

Aquele bilhetinho que encontrei em minha carteira, nossos nomes e um coração entremeando-os que marquei na madeira, os recados amorosos que você escreveu no meu caderno, os presentes que ganhei, as cartas, as malditas lembranças, as benditas mentiras. A cada dia encontro sinais inverossímeis da existência de um amor que não sei se de fato existiu.

E mesmo minha mãe… quando viveu isso? Quando escreveu esse texto que suponho brilhante? Como você e meu pai se conheceram? Quando você fez Direito, desistiu e depois resolveu fazer Psicologia? Quando vocês tiveram essas vidas que tanto admiro?

Quando as coisas aconteceram? Quando existiram, isto é, se existiram?

Remexo o passado, afobado, mesmo sabendo que nada é pra já, mas não encontro nada. São todos vestígios de uma memória que se perdeu em águas nada navegáveis.

Eu não sou um escafandrista e talvez Chico concorde comigo, do alto de sua experiência e de sua famosa timidez, que há certos amores que não possuem futuro algum. Mas isso eu deixo para os milênios vindouros descobrirem.